Exposição a agrotóxicos pode aumentar risco de alterações no desenvolvimento embrionário, aponta pesquisa do IPP
O desenvolvimento do sistema nervoso humano começa nas primeiras semanas de gestação, muitas vezes antes mesmo de a gravidez ser percebida. Nesse período, fatores ambientais podem exercer influência decisiva sobre a formação do embrião.
Uma pesquisa conduzida pela cientista Izonete Guiloski, do Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe, investigou como a exposição a agrotóxicos pode estar associada ao surgimento de defeitos do tubo neural, um grupo de malformações congênitas que afetam estruturas como o cérebro e a medula espinhal.
Publicada em 2025 na revista científica Toxics, a revisão sistemática analisou evidências produzidas em diferentes países ao longo de mais de duas décadas. Os resultados indicam que a exposição a pesticidas, especialmente no contexto dos trabalhadores rurais e em áreas próximas a cultivos agrícolas, pode representar um fator de risco para alterações no desenvolvimento embrionário.
Investigação global sobre exposição e desenvolvimento humano
A pesquisa foi conduzida seguindo os protocolos internacionais para revisões sistemáticas e reuniu estudos epidemiológicos publicados entre os anos 2000 e 2023. A equipe avaliou trabalhos desenvolvidos em diferentes países, incluindo Estados Unidos, China, México, Noruega, Índia e Inglaterra, buscando identificar possíveis associações entre a exposição de pais e mães a pesticidas e a ocorrência de defeitos do tubo neural.
Ao todo, foram analisados 16 estudos que investigaram diferentes formas de exposição. Entre elas estavam o trabalho agrícola, o contato ocupacional com pesticidas, a utilização de produtos químicos em ambientes domésticos e a proximidade de residências com áreas de cultivo.
Os pesquisadores também avaliaram diferentes períodos de exposição, incluindo os meses que antecedem a concepção e as primeiras semanas de gestação — uma fase considerada crítica para a formação do tubo neural, estrutura responsável por dar origem ao cérebro e à medula espinhal.
Ambiente pode influenciar o desenvolvimento do bebê
Os resultados revelaram que a proximidade de áreas agrícolas foi um dos fatores mais consistentemente associados ao aumento da ocorrência de defeitos do tubo neural. Em diversos estudos analisados, morar próximo a regiões de cultivo esteve relacionado a uma maior frequência de casos de anencefalia e espinha bífida, duas das principais alterações desse grupo de malformações.
Além da localização geográfica, alguns trabalhos identificaram associações entre a exposição ocupacional aos pesticidas e o aumento do risco de alterações no desenvolvimento embrionário. Os achados variaram de acordo com o tipo de produto químico, a intensidade da exposição e o período em que ela ocorreu.
A revisão também destacou que a exposição pode acontecer por diferentes vias, incluindo o ar, a água, os alimentos, o trabalho agrícola e até mesmo o contato indireto com pessoas que manipulam esses produtos. Essa diversidade reforça a complexidade do tema e a necessidade de ampliar o conhecimento sobre os impactos na saúde humana.
Evidências para orientar prevenção e políticas públicas
Para a pesquisadora Izonete Guiloski, compreender como fatores ambientais afetam as fases iniciais da vida é fundamental para fortalecer estratégias de prevenção e promoção da saúde materno-infantil.
Mais do que identificar riscos, a pesquisa contribui para fortalecer uma abordagem preventiva da saúde, baseada na compreensão de que o ambiente exerce papel essencial no desenvolvimento humano desde os primeiros momentos da vida. Ao produzir conhecimento científico sobre essas interações, o Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe ratifica seu compromisso com pesquisas que geram impacto social e ajudam a construir ambientes mais seguros para as futuras gerações.
Confira o conteúdo do estudo: https://doi.org/10.3390/toxics13010034.