Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe completa 20 anos e consolida modelo que integra ciência e cuidado

A trajetória de Vitória* ajuda a dimensionar, na prática, o que está em jogo quando se investe em pesquisa científica na saúde infantil. Nascida em 2022, a bebê apresentou febre poucos dias após o nascimento e passou por diferentes serviços de saúde sem um diagnóstico claro. A recomendação médica foi levá-la ao Hospital Pequeno Príncipe — uma decisão difícil para a mãe, que anos antes havia perdido outra filha na instituição.
O tempo, no entanto, havia passado, e avanços importantes da ciência criaram outro cenário, permitindo um desfecho diferente. A partir de uma pesquisa conduzida no Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe (IPP), foi possível identificar uma doença genética rara que comprometia o sistema imunológico da menina — o mesmo quadro que sua irmã teve anos antes. No caso de Vitória, porém, o diagnóstico proporcionou a indicação de transplante de medula óssea, realizado em 2023, mudando a história da menina e de toda a família.
O estudo que possibilitou esse diagnóstico analisou o material genético de crianças internadas por infecções graves, identificando falhas no sistema imunológico que, até então, passavam despercebidas. O caso ilustra um dos principais diferenciais do IPP ao longo de suas duas décadas: a capacidade de transformar pesquisa em decisão clínica.
O início do IPP
Criado em 2006, o Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe nasceu de uma decisão estratégica do Complexo Pequeno Príncipe: investir de forma estruturada em ciência como parte do cuidado em saúde, mesmo em um cenário marcado pelo subfinanciamento da pesquisa no Brasil.
“Desde o início, houve uma convicção clara de que investir em ciência era fundamental para transformar o cuidado em saúde infantil. É uma aposta de longo prazo, baseada na confiança de que o conhecimento é capaz de mudar trajetórias de vida”, afirma a diretora geral do Instituto, Ety Cristina Forte Carneiro.
O projeto ganhou impulso ainda na fase inicial com o apoio de Pelé, que se tornou padrinho da iniciativa em 2005, contribuindo para dar visibilidade e credibilidade à criação do Instituto.
Ao longo dos anos, o IPP consolidou um modelo baseado na medicina translacional, que integra laboratório, formação acadêmica e prática clínica. Inserido no Complexo Pequeno Príncipe — que reúne hospital, faculdade e centro de pesquisa —, o Instituto opera em um ambiente onde a produção de conhecimento está diretamente conectada às demandas reais da assistência.
Formação de pesquisadores
Um dos pilares dessa estrutura é a formação de pesquisadores. O Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia Aplicada à Saúde da Criança e do Adolescente alcançou nota 6 na Capes, posicionando-se entre os centros de excelência do país. O desempenho reflete uma combinação de produção científica relevante, com 870 artigos publicados desde o início do programa, internacionalização e formação qualificada de 237 mestres e doutores voltados à área da saúde pediátrica.
“A excelência do programa reflete a qualidade dos pesquisadores que atuam no Instituto e a capacidade de produzir ciência de ponta, alinhada às demandas reais da saúde infantil. É um ambiente que forma profissionais altamente qualificados e, ao mesmo tempo, gera conhecimento com aplicação direta”, realça o diretor científico do IPP, Bonald Cavalcante de Figueiredo.
A consolidação desse modelo exigiu investimentos contínuos em infraestrutura. Nos cinco anos, cerca de R$ 60 milhões foram destinados à aquisição de equipamentos de alta complexidade, como plataformas de sequenciamento genético, espectrometria de massa e tecnologias avançadas de análise celular — recursos essenciais para pesquisas em áreas como oncologia, doenças raras e imunologia.
Parte dessa capacidade está concentrada no Biobanco do Instituto, implantado em 2015, que reúne amostras biológicas utilizadas em estudos nacionais e internacionais. A estrutura tem se tornado um ativo estratégico ao permitir a realização de pesquisas em larga escala e com alto nível de precisão, além de viabilizar colaborações científicas.
Desafios e subfinanciamento
Como instituição filantrópica, o financiamento dessas iniciativas depende também da mobilização da sociedade. Eventos como o Gala Pequeno Príncipe — que reúne doadores e parceiros para captação de recursos —, além de parcerias com empresas e acesso a programas públicos, têm sido fundamentais para sustentar a pesquisa em um ambiente de restrição orçamentária.
“Ao completar 20 anos, o Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe consolida um modelo ainda pouco comum no país: um centro de pesquisa vinculado a um hospital pediátrico de alta complexidade, capaz de integrar assistência, ensino e investigação científica. Nesse arranjo, a produção de conhecimento extrapola o âmbito acadêmico, traduzindo-se em diagnóstico, tratamento e prevenção — com impacto direto na vida de crianças e adolescentes”, ressalta Ety Cristina.
“Essa integração entre assistência, ensino e pesquisa é o que sustenta a capacidade de inovar e de gerar impacto real. É um modelo que potencializa resultados e amplia a nossa contribuição para a saúde da criança e do adolescente”, explica o diretor corporativo do Complexo Pequeno Príncipe, José Álvaro Carneiro.
*O nome da paciente foi alterado para preservar privacidade da família.