Microbiota oral: como a boca influencia a saúde de crianças e adolescentes

Ensinar saúde bucal para crianças e adolescentes vai muito além de orientar sobre escovação e uso de fio dental. O tema ainda costuma ser tratado de forma isolada, sem conexão com a saúde geral, o que pode reduzir a percepção sobre a importância desses cuidados, mas a verdade é que a saúde da boca impacta todo o organismo.
É aí que entra o conceito de microbiota oral. Ela é o conjunto de microrganismos que vivem na cavidade bucal e inclui centenas de espécies de bactérias que convivem em equilíbrio no organismo. A microbiota pode ser encontrada em dentes, gengiva, língua e saliva.
Quando essas bactérias estão em equilíbrio, elas ajudam a manter a saúde da boca e proteger o organismo, atuando como uma barreira de defesa, porém, quando ocorre desequilíbrio, podem surgir problemas como cáries, gengivite, periodontite, inflamações e outras doenças. É o que explica o dentista com formação em genética Cleber Machado, pesquisador do Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe:
“Na boca, começa a digestão, com o fracionamento dos alimentos em macromoléculas até virarem algum nutriente, para ser absorvido ou não pelo intestino. As bactérias na boca ajudam nesse processo, mas algumas vão para o intestino e podem causar problemas. E quando elas caem no vaso sanguíneo, pode ser ainda mais sério”, aponta.
Entendendo a microbiota e os impactos na saúde
No IPP, diversas pesquisas exploram a relação entre a saúde e a microbiota. Os estudos conduzidos por Cleber Machado exploram a microbiota oral em contextos clínicos complexos, como a relação com a microbiota intestinal em pacientes com leucemia linfoblástica aguda (LLA), incluindo aqueles em tratamento com quimioterapia.
O objetivo é entender como essas comunidades microbianas se comportam e como podem impactar a saúde dos pacientes. Os estudos também investigam o potencial da microbiota como biomarcador, como um indicador biológico que pode ajudar a orientar decisões clínicas.
“Por meio de análises genéticas, é possível identificar o perfil das bactérias presentes em cada indivíduo, funcionando como uma espécie de ‘impressão digital’ microbiana. Esse mapeamento pode contribuir para estratégias mais personalizadas de cuidado, manejando o tratamento especialmente em pacientes em quimioterapia”, afirma Cleber.
A saúde bucal é tão importante para a saúde global de crianças e adolescentes, que no Hospital Pequeno Príncipe existe uma equipe dedicada à odontologia. E pacientes que estão em processo de preparo para o transplante de medula óssea (TMO) passam pela avaliação dos dentistas antes de serem submetidos ao transplante, reforçando o cuidado para que bactérias na boca não tenham impacto na recuperação do TMO. Esse cuidado é estendido também a pacientes de outras especialidades de alta complexidade, para garantir um ambiente bucal saudável.

Cuidados com a saúde bucal
A disbiose (desequilíbrio da microbiota oral) pode estar associada a fatores como higiene bucal inadequada, alimentação desequilibrada, alterações no pH da boca, uso de medicamentos, como antibióticos, ou quimioterapia.
“As bactérias são importantes, ajudam na nutrição, mas é importante tentar reequilibrar o microbioma”, realça o pesquisador.
Nesse contexto, olhar para a saúde da boca é também olhar para a saúde como um todo, especialmente em crianças e adolescentes, fase em que a prevenção pode gerar impactos duradouros. Existe até uma data para lembrar a importância dos bons hábitos: 20 de março, quando é celebrado o Dia Mundial da Saúde Bucal.
Entre os cuidados fundamentais para controlar a proliferação de bactérias potencialmente nocivas estão escovação adequada, uso de fio dental, acompanhamento odontológico regular e alimentação equilibrada, como reforça Machado:
“O ambiente determina muita coisa, é difícil enumerar os fatores, porque são muitos. Se a criança tem um padrão de alimentação só com comida processada, se faz a higienização depois de comer. Mas tem como prevenir! Escovar os dentes, usar fio dental e fazer flúor”, conclui.